Como sobreviver na UTI neonatal

É só o segundo post e devia estar falando mais sobre produção independente, mas nada mais adequado que um post precoce sobre prematuridade. O #novembroroxo culmina no dia 17, Dia Mundial da Prematuridade. E de todos os tabus, os segredos, mistérios da gravidez, nada, nem puerpério, nem depressão pós-parto é tão ausente nas discussões quanto a prematuridade.

O máximo que ouvi durante a gravidez foi “geralmente gêmeos nascem prematuros, talvez passem um tempo no hospital depois do nascimento”. E só. E no meio da nuvem de felicidade que eu andava durante a gravidez, nunca me ocorreu pesquisar, eram só um tempinho no hospital. No meu caso, o “tempinho” virou 88 dias.

Acordei no dia 17 de novembro (TRUE STORY!) de 2017 com uma secreção leeevemente rosada. Tinha uma reunião, resolvi adiar e ir no PS. Fui atendida e a médica constatou que eu estava com 1 cm de dilatação. Era a minha 26a semana de gravidez e ela falou que provavelmente eles iam nascer naquele dia. É pânico que chama SIM.

Liguei pra prima, algumas amigas, tentando pegar forças pra não ligar aos prantos pra minha mãe, que mora em outra cidade. Quando liguei pra ela, já tinha recebido a notícia que estava com bolsa rota (tema que rende um outro posto) e ia ficar internada para tentar adiar o parto.

Um em cada 10 bebês são prematuros. A partir da 24a semana gestacional, os fetos são considerados viáveis. Se nascem até a 28a semana, são considerados prematuros extremos. Eu ainda não sabia durante a internação sobre essa nomenclatura, mas óbvio que só queria pensar que ia ficar os próximos 3 meses na cama em modo incubadora humana, bebendo litros de água.

Mesmo com a diabetes gestacional que apareceu pós internação, todos os exames apontavam que esse repouso forçado daria certo. Uma semana depois da internação, entrei em trabalho de parto. E aí começou a minha vida nesse universo paralelo que é a UTI Neonatal.

Entendo porque o tema é tabu e ninguém quer falar sobre ele diante de uma grávida. Mas ainda assim acho que um pouco mais de informação deveria circular sobre o tema pra que a gente chegue lá com pelo menos uma noção do que podemos encarar.

COMO ENCARAR A UTI NEONATAL

Eu nunca fui tão feliz e tão triste como na sala 5 do São Luiz. E isso é um ótimo resumo sobre toda a experiência: é um momento de extremos. Você vai se sentir desorientada, feliz, ignorante, orgulhosa, pessimista, forte, incapaz. Muitas vezes, tudo isso ao mesmo tempo. Essa listinha está longe de ser abrangente, mas espero contribuir um pouco sobre o que fazer e como lidar com a situação.

Um bebê só vai pra casa depois que souber mamar, estiver com mais de 2kg e respirando sem aparelhos. Existem casos de bebês que vão pra casa como home care ainda com suporte de oxigênio, mas só depois da alimentação e do peso estarem resolvidas.

Pare de perguntar “quando vamos pra casa?”. Isso nunca é uma certeza absoluta. O mais próximo de uma referência é a data prevista do parto. É duro, mas você precisa entender e aceitar que agora a gestação está acontecendo naquela caixinha. Amar através do plástico da incubadora parece estranho, mas é totalmente possível. E isso é o melhor pra você e pro bebê.

Siga as regras. Você vai lavar as mãos e passar álcool. Vai vestir aventais por cima das roupas. Vai esquecer do celular. Vai cumprir os horários de conversas com os médicos, do banco de leite. Só vai segurar seu bebê no colo quando alguém o colocar em suas mãos. Pense que pelo menos alguma coisa tem que ser controlável no meio de tudo que está acontecendo. Dica: entenda as hierarquias caso queira tirar dúvidas com alguém. Geralmente, em uma UTI os médicos estão de verde, as enfermeiras de rosa e as técnicas de enfermagem estão de azul marinho.

Processe seu luto. você vai ficar incrédula, vai ficar puta, vai barganhar, vai deprimir. Porque todo aquele sonho lindo de parto, amigos visitando o quarto, lembrancinhas, bebê no peito no primeiro momento provavelmente cai por terra. Se permita cada passo, porque você vai ter que em algum momento aceitar o que aconteceu.

Aceite. Aceite que o bebê chegou antes da hora. Aceite que isso foi inevitável, independente do motivo do parto. Aceite que ele depende daquela equipe. Aceite que você depende daquela equipe. Aceite que você depende de quem estiver de seu lado. Aceite QUALQUER ajuda.

Chore. Todos ali estão no mesmo barco, independente do motivo, da situação do bebê, da família. Chore pra se aliviar. E prometo que mesmo no meio do caos você vai ter momentos lindos pra chorar. Quando você vir pela primeira vez um pai ou mãe visitar o filho na UTI, ou fizer o primeiro pele a pele/canguru você vai me entender.

Pergunte. A sinfonia dos aparelhos e dos fios fica insuportável se você não souber o que está acontecendo e aprender a ler os monitores. Peça a alguém da equipe pra te explicar. Se esquecer, peça de novo. Isso ajuda muito a começar a te dar alguma segurança sobre a situação do bebê. E se tiver dúvidas, pergunte de novo.

Cuidado com o Dr Google. Só pesquise se você for pouco impressionável e estiver num dia ótimo, excelente, incrível. Ainda assim, antes de pesquisar, pergunte a alguém da equipe sobre seu caso, porque na internet mesmo as fontes mais confiáveis podem derrubar suas esperanças num dia mais difícil. Uma fonte que usei e que era bem trabalhada para não disparar nenhum gatilho é o app MyPreemie, criado pela Graham’s Foundation, uma ONG de apoio a pais com bebês prematuros. O app tem um faq de tudo sobre prematuros e sugestões de perguntas que você pode fazer pra entender melhor a situação do bebê. De quebra, tem uma área para você anotar as medidas (acredite, você vai acompanhar cada grama que ela/e ganha) e um diário com um roteirinho pra você adicionar fotos, o nome das pessoas cuidando do bebê, seus sentimentos e eventos positivos ou negativos.

Converse. Fale com outras mães, com quem estiver do seu lado, com sua família, amigos, desabafe. Geralmente os hospitais também disponibilizam psicólogas. Se sentir a necessidade, bata um papo com elas.

Se permita pausas. A vontade é nunca sair do pé da incubadora, mas você precisa respirar. Faça as unhas. Ligue para uma amiga. Tome um café com muito chocolate. Tire um cochilo. Pegue sol. RESPIRE.

Peça ajuda. Um conselho que todas as minhas amigas mães me deram quando estava pesquisando sobre a produção independente. Se você não souber pedir ajuda, aprenda. Se não aprender por mal, vai aprender na maternidade. Sabe o lance que é necessário uma aldeia para criar uma criança? Se você não falar nada, ninguém vai saber que você precisa de ajuda, nem que seja pra te trazer um copo de água.

COMO APROVEITAR O MELHOR DA UTI NEONATAL

Aprenda a amamentar. Bebês nascidos com menos de 34 semanas ainda não dominam a coordenação da sucção-deglutição-respiração, então no começo são alimentados por sonda. Além disso, mamar gasta energia, então o peso também entra como um componente importante na hora de liberarem a alimentação. E aí, amiga, você está no meio de dezenas de super especialistas de amamentação, mulheres que vão te dar todas as dicas de pega, posição, sinais pra que seu momento com o pequeno seja ótimo para os dois. Muuuito melhor que contratar uma consultora por uma tarde em casa.

Conheça seu bebê. Aproveite para entender se ele gosta de cobrir a cabeça, se dorme depois de comer, se prefere tomar banho de barriga pra cima ou pra baixo, se está chorando porque quer que a fralda seja trocada. Você vai ter especialistas de seu lado o tempo todo, aproveite a experiência da equipe pra ir aprendendo os gostos da quiança.

Conheça você como mãe. Você surta se o bebê chora? É calma? Prefere ouvir notícias difíceis sozinha, ou com alguém do lado? Precisa saber dos mínimos detalhes, ou prefere só entender por alto? Confia, ou desconfia? É apegada? Aproveite pra ler os sinais.

Se recupere do parto. É um saco não poder carregar a cria a qualquer hora, mas essa ausência de esforço pode fazer maravilhas pra sua recuperação. Além do parto, ainda aproveitei pra retirar a vesícula, que estava dando sinais de pane durante a gravidez. Ia ser muito mais complicado me recuperar desse segundo procedimento tendo que tirar bebê do berço, trocar fraldas, colocar no peito.

Analise as rotinas. Se você curte um reloginho, um sistema, uma planilha, nada melhor que continuar as rotinas e horários do hospital em casa.

Faça amigos para a vida. Você vai entrar na ciranda dos ombros com as mães de UTI, um dia você apoia, no outro você se escora. E esse vínculo é para sempre. O carinho que tenho por aquelas mães em meu WhatsApp é enorme e amo que nunca paramos de trocar.

Agradeça. Cada carinho e dica recebido das técnicas, a acolhida no banco de leite, a habilidade das enfermeiras, o conhecimento dos médicos, o cuidado de todos os funcionários do hospital com você e seu bebê. E agradeça por todos os momentos, felizes ou não. Todos eles são parte de sua jornada na maternidade.

7 comentários em “Como sobreviver na UTI neonatal

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    1. Adorei a iniciativa…não passei por UTI nem prematuridade.

      Mas NINGUÉM nos fala sobre a dor e a solidão do pós parto e da amamentação, e da contracção do útero, e das aparentemente infinitas noites e dias que vamos passar entre mamadas ou “tentativas de” …atritos…fraldas…e vice versa.

      Olhar nossos filhotes é a maior prova que Deus existe e o amor tb…mas não é mole .

      Diria que como a rapadura é doce mas não é mole NÃO.

      Ser mãe é uma experiência que só sendo vivida para saber exatamente como é ser feliz e se sentir culpada ao mm tempo, fazer seu melhor e ainda se sentir impotente…mas é bom demais mm assim.
      Beijos.no coração

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      1. Tem tanta coisa que não nos contam, né? Acho q a intenção é proteger ou não influenciar, mas a gente ia se questionar tão menos se algumas coisas já estivessem claras… Ainda bem que aqueles bracinhos em nossa direção nos ajudam a superar isso. 🙂

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  1. Realmente o tema UTI neonatal é esquecido. Aí visitar uma maternidade, raramente te apresentam a UTI.
    Nunca passou pela minha cabeça, ser mamãe de UTI.
    Todos aqueles preparativos para o quarto, primeira roupinha, lembrancinha, quadrinho, decoracao o mundo Rosa da maternidade caem pelo ralo😨.
    Um dos momentos mais difíceis é você ter alta e não sair com o bebê no seu colo. Como ir para casa e deixar o bebê em uma UTI?
    Lágrimas e mais lágrimas.
    Os dias não passam.
    Foram 71 longos dias.
    O que levei dessa experiência?
    Pessoas incríveis, que sempre estavam ali para apoiar nas horas mais difíceis, quando pensava em cair, tinha pessoas incríveis, como a vovó da Stela e você, para nós levantar.
    Nos tornamos mais fortes e pacientes.
    Parabens pelo texto e pelo blog.😘😘

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    1. Pra mim foi muito louco voltar pra casa porque ainda estava caindo a ficha de que o parto tinha acontecido. E é isso, levamos as pessoas lindas e bebês incríveis que conhecemos por lá e rios de paciência. ❤

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  2. Parabéns, Capitu! Posso diEr que Tb vivi alguns meses na Sala 5 da UTI neonatal do São Luiz . Foram dias difíceis, alguns deles em que eu achei que não fosse suportar, mas em outros vivi os melhores momentos da minha vida. Pegar a minha bebê, que era tãão pequena no colo, depois de cerca de dois meses de vida, foi a maior alegria. Fiz amigas verdadeiras ali. Hoje nossos bebês têm cerca de 1 ano e meio E nos encontramos sempre que possível para juntar a criançada.

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